Remorso

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Remorso

Remorso

Meu pai. Meu querido pai, você não está mais aqui e sua ausência me traz tantas lembranças alegre, e tristes. As lembranças tristes chegam doer no fundo da minha alma. Tenho ânsias de ouvir seus sábios conselhos, pedir perdão das desobediências, das malcriações que fiz para você, da qual ainda hoje muito me arrependo; agora é tarde de mais.

Pai!... se a cada malcriação que fiz você me tivesse dado uma chicotada no lombo, ai doer só no momento,... mais você apenas olhava para mim com seu olhar, meigo e triste, retratando e fixando sua fisionomia na minha memória, lembranças que me faz sofrer, até o fim da minha vida, um grande remorso

Este conto foi baseado num fato que me foi contado.

Entardecia,...

Um senhor bem idoso adentra no cemitério, caminha trôpego por entre os ciprestes, chega enfrente a uma sepultura estende a mão, tremula, toca com as pontas dos dedos a marmoreia campa, faz uma prece, e entre soluços o monologo começa assim:-

Pai... hoje eu vim só, não troce seus bisnetos, netos, nem minhas noras. Hoje criei coragem e vim confessar o meu crime. Pai!... quem pos fogo no seu paiol cheio de milho foi eu.

Sempre que ia contar este meu crime, que arruinou sua vida, um nó apertava minha garganta eu não conseguia falar.

Tudo começou quando o senhor contratou aquele preto para lhe ajudar na lida do sitio. Chegou a mudança para ocupar a casa da colônia, o preto trouxe também a esposa e um recém nascido. Quando o preto descarregou a mudança do caminhão, eu falei: - Xiii!... quanta tranqueira.

O preto me olhou com os olhos vermelho igual um capeta. Ai começou a nossa mal querença. Eu fui “xeretear” no quintal dele e deixei cair uma lata no fundo do poço. Fugi correndo, escondi atrás de um pé de bananeira, e vi o preto com um gancho preso numa corda tentando pegar a lata, esbravejava todos nomes feio que sabia.

O nenê foi colocado num jacá forrado com panos debaixo de uma laranjeira, próximo a um rego d’água. Pouco a cima do nenê a preta pendurou uns brinquedos brilhantes. Aqueles penduricalhos excitaram minha curiosidade. Avancei para pegar os brinquedos, esbarrei no jacá, que virou no chão, derramando o negrinho que rolou pelo declive até o rego d’água, A preta veio da casa gritando como uma louca e eu corri esconder na minha casa. Quando o preto chegou para o almoço, ela encheu a cabeça dele que, irado, ele procurou o senhor e deu queixa.

O senhor pela primeira e única vez, pegou uma varinha e me deu umas chicotadas, com o lombo ardendo corri para o paiol que estava vazio, e passei a tarde toda chorando e jurando vingar do preto.

.oOo.

O milharal já estava seco no ponto de colher. O senhor, mais o preto, começaram a colheita, “quebravam” as espigar e jogavam no monte, depois vinha com a carroça recolhendo as espigas que eram levada para o paiol. Foram muitos dias nesta labuta até que o paiol ficou lotado. O senhor estava muito feliz, porque a safra foi pródiga, ai dar para pagar as dividas e ainda sobrar dinheiro.

Mais o milho não era todo seu, uma pequena parte era do preto, que por força de um acordo ele tinha o direito e desfrutar de num pedaço de terra. Ele plantou também milho, que foi colhido e colocado num quartinho anexo ao paiol.

Era seu costume jantar depois ficar sentado na sala conversando ou ouvindo o rádio. Era a hora propicia para a vingança. Fui até a cozinha peguei uma caixa de fósforo entrei no quartinho, a palha do milho estava muito seca, risquei o fósforo cheguei a chama na palha, o fogo logo passou para palha, iniciando o incêndio. Eu corri esconder atras das bananeiras. Logo o fogo também envolveu todo o paiol.

Alguém gritou foooogo!!!

O senhor, a mamãe, minha irmã, o preto, a sua mulher, vieram correndo com baldes e latas, tiravam água do poço, do rego, e jogavam no fogaréu. A pirâmide de fogo alimentado pelo vento aumentou rápido, subia as alturas, o calor foi tão forte que se algum ser vivo se aproximasse era calcinado. O senhor em desespero, num ato heróico ainda insistia jogar água no fogo, até que mamãe o impediu da sinistra empreitada.

Impotentes ante o fogo voraz só restou o ato de olhar as chamas consumirem todo o paiol, a toda sua esperança.

Eu ainda demorei dias para entender a desgraça que fiz.

Dias depois a cinzas esfriaram, eu vi o senhor remexendo as cinzas, procurando não sei o que, vi lagrimas em seus olhos. Golpeado também na sua economia, na sua esperança, o preto carregou a mudança, e inicio viajem, como num cortejo fúnebre. O senhor atormentado com as dividas, não teve outro caminho, vendeu o sitio por valor ínfimo, comprou uma casa na cidade e veio morar fora do seu meio.

Abatido o senhor envelheceu antes do tempo.

O dinheiro logo acabou, o senhor que era altivo, teve que se contentar com o dinheiro dos pequenos biscates, com carpir quintal, carregar mudança. Véspera de eleição, um candidato demagogo prometeu cuidar, para que o senhor tivesse uma aposentadoria. Encheu o senhor de esperança, recolheu seus documentos, e nosso voto, foi eleito e nunca mais deixou que o senhor falar com ele. Cortava meu coração ao vê-lo todas as tardes esperando o carteiro trazer a tal carta da aposentadoria, o senhor morreu e ela não veio. E a cada do dia que findava era uma esperança que morria para reviver no dia seguinte.

Pai.... eu tenho dinheiro, vim pagar o prejuízo que lhe dei.

Diz quanto eu lhe devo?...

Pelo celeiro...$ 20.000,00?

Pelo milho $8.000,00? Eu arredondo para $ 30.000,00.

É pouco?...

Eu pago mais diz quanto é...

Pai!... tira de mim este remorso que rói minha alma...

  Contos de Natan